BLOG - MAURICIO MARTINS

terça-feira, 13 de janeiro de 2009

Sucesso!!

No primeiro post do ano de 2009, um texto de NIZAN GUANAES, grande publicitário brasileiro.  Este texto foi lido por ele quando paraninfo de uma turma de formandos da FAAP.

FELIZ 2009 PARA TODOS!! SUCESSO E PROSPERIDADE!!


Dizem que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo, estou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns.
Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos.

Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que dinheiro virá como conseqüência.
Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser, nem um grande profissional, nem um grande canalha.

Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham, porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi
construído antes, na alma.

A propósito disso, lembro-me de uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse:
-"Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo."
E ela respondeu:
- "Eu também não, meu filho."

Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário.
Digo apenas que pensar e realizar, tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.

Meu segundo conselho: Pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento,não chega a viver
como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguaçu.

Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: "Seja quente ou seja frio não seja morno que eu te vomito". É exatamente isso que está escrito na carta de Laudicéia: Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito, ou seja, é preferível o erro à omissão, o fracasso ao tédio, o
escândalo ao vazio. Já li grandes livros e vi filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso... Colabore com seu biógrafo.

Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tenha consciência de que, cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si, uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra.

Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse?, eu sabia! Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele
faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa e bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falaram. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar.

Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 18 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio e constrói prodígios. O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas japoneses, que trabalham de sol a sol, construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior megapotência do planeta.
Enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho.

Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, pois só o trabalho leva a conhecer pessoas e mundos
que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso.
(Nizan Guanaes)

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

A economia como mistério

O texto abaixo vale para uma boa reflexão sobre a economia, e a  visão que temos dela.

A economia como mistério

(Renato Janine Ribeiro)

Na política vivemos hoje um paradoxo, mais que isso, uma contradição fundamental: por um lado, nunca houve tantas liberdades democráticas no mundo, com tanta gente com direito a se expressar, a se organizar, a votar em eleições minimamente livres. Por outro lado, atualmente toda a escolha eleitoral está hipotecada pela economia. Mesmo quando se elege alguém propondo que "um outro mundo é possível", para usarmos a bela frase que o Fórum Social Mundial cunhou, um terceiro turno não-democrático acaba fazendo as decisões econômicas se aproximarem das impostas pelo chamado "pensamento único", isto é, o consenso neoliberal de Washington.

Assim, temos liberdade de escolha. Mas não nas questões fundamentais. Qualquer pessoa que hoje vá discutir seriamente os rumos do Brasil começa debatendo a política econômica ou monetária, e os modos (ou a impossibilidade?) de mudá-la. Muitos entendem que com a política vigente nessa área, que lembra a do governo passado, não poderá o governo atual realizar suas promessas sociais, nem o PT honrar seus princípios. E o nó dessa impossibilidade se chama economia.

Quero tratar aqui de um aspecto desse nó, que vale para o mundo inteiro: é que a economia soa, para a maioria esmagadora das pessoas (inclusive para mim), como misteriosa. Isso a coloca, estruturalmente, em conflito com a democracia. Uma sociedade democrática significa que todos discutam – e decidam – as grandes opções. Como eleitores, devemos ter alternativas diferentes e legítimas. No debate e no voto, escolhemos qual sociedade preferimos. Mas escolhemos mesmo? Porque a principal escolha está vinculada ao caráter da economia: solidária ou competitiva, socialista ou capitalista, voltada para o mercado interno ou para a exportação, etc.. E essa escolha não está ao alcance do leigo.

Ora, um traço fundamental da democracia é justamente que ela é um regime de leigos! Platão, que não a amava, procurou confiar a política a especialistas: é a idéia do "filósofo-rei", do sábio capacitado a decidir porque tem conhecimento científico. Ao contrário disso, porém, os atenienses entendiam que qualquer um tinha o direito de falar e votar. A democracia não é techné nem episteme, não é técnica nem ciência.

E no entanto hoje as questões básicas aparecem como um saber de técnicos, um saber qualificado e, mais que isso, muito difícil. Como fica então o caráter democrático da escolha? Fica amesquinhado. Elegemos quem promete uma coisa e depois, no governo, faz outra. Vejam: não se trata de acusar alguém de traição. Trata-se de entender qual o inquietante caráter da política atual que torna as liberdades reféns da economia.

Devemos lembrar o começo da era moderna. Um pouco antes da Revolução Inglesa de 1640, os reis insistem na natureza sagrada da realeza. Isso implica que haja arcana imperii, dizem os pensadores monarquistas, segredos do governo, "mistérios da realeza", explica o filósofo Francis Bacon, ministro do rei Jaime I. Em tais mistérios não se intrometa o súdito. Não os entenderá. Um véu, continua o filósofo-ministro, separa os homens comuns do poder, como no tabernáculo do Antigo Testamento.

Pois o que as revoluções modernas, do século XVII em diante, fizeram foi exatamente destruir esses mistérios do poder: o governante deve prestar contas a todos, sendo eleito ou referendado pela maioria. As Luzes abriram os mistérios, devassaram os arcanos. Avançou-se muito nesta direção. Mas curiosamente, em especial após a vitória do capitalismo sobre o comunismo, a economia ocupou esse lugar de difícil acesso que era, há três ou quatro séculos, o dos segredos do poder.

É claro que a economia, ao contrário da política de inspiração sagrada, não se apresenta como religião, mas como ciência. Seus mistérios não são divinos, mas vêm da dificuldade de sua matéria – na verdade, de uma dificuldade comum às ciências humanas, nas quais é difícil ser objetivo uma vez que estão envolvidos os interesses de quem conhece. Contudo, vários economistas falam e agem com algum fundamentalismo; sua linguagem é arcana, suas previsões falham; e, ao menos no Terceiro Mundo, com freqüência eles não se responsabilizam pelos maus resultados alcançados. Esses três traços não são democráticos e evocam o que houve de pior na religião – o extremismo, a indiferença à realidade, a irresponsabilidade do pregador.

Há um ponto a acrescentar. Destaquemos, entre os primeiros a praticar uma reflexão capitalista sobre as relações sociais, dois pensadores do mundo inglês, John Locke e Bernard Mandeville, um logo anterior a 1700, o outro logo posterior. Locke é o filósofo público do liberalismo. Ele pensa Deus à imagem do proprietário, como se vê em seu Segundo Tratado sobre o Governo (ed. Martins Fontes). O homem livre e racional é o que sabe usar sua propriedade. As liberdades individuais são valorizadas, mas sempre dentro de uma ordem divina.

Já de Mandeville podemos dizer que é o filósofo oculto do capitalismo. Seu moto é o célebre "Vícios privados, benefícios públicos", como mostra em sua Fábula das abelhas. Diz que, se para produzirmos uma sociedade boa dependermos da bondade de cada um, nada funcionará. Devemos pois apostar nos homens como são, egoístas, ambiciosos, luxuriosos – e construir instituições que canalizem essas paixões nada utópicas, para que gerem um resultado vantajoso socialmente. A livre concorrência é o grande exemplo que ele dá. Cada concorrente é movido pela sua ganância, que é um pecado – mas com isso melhora a qualidade dos produtos e abaixa os preços, o que é um ganho social.

Resumindo, Locke produz a ideologia do capitalismo, da qual todo liberal pode orgulhar-se, ao passo que Mandeville revela suas entranhas. Não dá para o capital sair a público elogiando Mandeville. Pegaria mal. Mas ele é quem conta o segredo de uma política e de uma economia que não precisam do bem moral para funcionar bem.

Ora, esse segredo tem dois lados. Primeiro, significa que, para haver uma sociedade que funcione, não temos de ser pessoalmente éticos e bons. Isso traz um enorme alívio para a vida social, porque nos permite lidar com o homem como ele é (Freud provavelmente diria que isso reduz nosso dispêndio psíquico) e não como alguns sonham que deveria ser. Essa, aliás, foi uma enorme vantagem – na prática – do capitalismo sobre o comunismo. O capital se contenta com o homem "como é", com seus vícios. Os comunistas queriam liberar o homem, construir o "homem novo". Não o conseguindo, ficaram aquém do capitalismo. Mais uma vantagem: essa redução da ética, que o capitalismo efetua, eliminou o peso dos moralistas religiosos, que – no poder – sempre foram intolerantes, levando às fogueiras da Inquisição ou de Salém. Esse, o saldo positivo de Mandeville.

Mas o segundo lado é que assim se chega a uma desqualificação dos princípios morais. Estes passam a ser entendidos como insuficientes e mesmo contraproducentes. Albert Hirschmann mostrou como funciona essa desqualificação, em seu livro A retórica da intransigência: todo projeto progressista ou apenas justo seria considerado inútil. Subir o salário mínimo, abolir a escravidão, investir no social reduziria os salários reais, lançaria os negros na miséria e na exclusão, geraria desemprego. Toda política social daria no contrário do que ela sonha. Esse discurso intransigente contra os direitos sociais é o legado complicado de Mandeville.

Os dois aspectos, os que chamei de positivo e de complicado, obedecem a uma lógica parecida, mas se distinguem. Não precisamos ser bons para que a sociedade funcione bem, diz o aspecto positivo. Alívio. Para que a sociedade funcione bem, não podemos ser bons, enfatiza o aspecto negativo. Inquietante. Não basta uma política ser moral, diz o primeiro. Uma política não pode ser moral, brada o segundo. Boas intenções não são suficientes, afirma o primeiro. O segundo: boas intenções necessariamente causam o mal. De volta ao primeiro: más intenções podem ter bons resultados. Ao segundo: bons resultados virão de medidas que parecem más.

É claro que uma política econômica capitalista não precisa seguir o tempo todo a segunda linha, a duvidosa. Mas às vezes o faz. Temos a impressão de que o fez demais, até. Assim, para produzir resultados que todos almejam, como a redução da miséria e da injustiça social, ela pode usar instrumentos que, a curto ou médio prazo, geram o contrário. E dirá que, se queremos o crescimento, devemos começar pela recessão; para uma justiça social a longo termo, deveríamos agravar a desigualdade a curto prazo. O problema é que muitas vezes os meios se perpetuam, a meta não se atinge.

É assim, e não pela religião, que a economia se constitui como um discurso de difícil compreensão. Ela é um saber leigo, no sentido de que aspira à ciência. Não é uma teologia. Mas, tanto pela sua linguagem cifrada (como a de tantas ciências) quanto, sobretudo, por esse dispositivo mandevilliano, que nos mostra um mundo opaco, um mundo no qual as intenções geram amiúde o contrário do que queríamos, ela se torna um território de difícil acesso ao leigo, no sentido de que se fecha ao não-profissional.

Não estou dizendo que esse modelo teórico da economia capitalista seja necessariamente errado. Basta ver o filme Adeus, Lênin, que mostra como a Alemanha Oriental, comunista, vivia um enorme descompasso entre os sonhos (que alguns idealistas compartilhavam) e a realidade repressiva. De boas intenções certos lugares estão cheios, sabe-se. Melhor, então, ser mais realista e menos utópico. Mas isso acarreta problemas sérios, nos quais nosso mundo está enredado e com os quais concluímos.

Do alerta muito oportuno (e que Maquiavel já fazia) contra os males de uma política (ou economia) baseada na moral e nas boas intenções, se passa ao extremo de uma política ou economia fundada na negação da moral. Viviane Forrester é simplista no desabafo que é seu livro O horror econômico, mas uma nota sua merece ser lembrada: que certa vez, ao cair o emprego, a Bolsa francesa festejou. Isso cria – numa sociedade que cada vez mais apela publicamente para a moral, convencendo-se de que não pode haver uma democracia de massas sem transparência e sem combate à corrupção – um cerne imoral, um núcleo duro que é contrario a bons propósitos, como o fim do desemprego. O discurso político proporá a inclusão social, mas a prática econômica aumentará a exclusão. Daí, uma esquizofrenia entre a política, que tenta ser democrática à medida que aumentam as liberdades, e a economia, que gera desigualdades e exclusões.

Pois como atender uma agenda política, que é basicamente social, sem uma economia pujante? E essa economia pujante, no mundo capitalista, apela a sentimentos – em especial dos investidores – que nada têm em comum com os ideais democráticos. Os investidores dispõem de um poder de fogo muito superior ao dos cidadãos comuns. Tornam-se cidadãos de primeiro escalão, que podem perder no primeiro e no segundo turno, mas ganham no terceiro – o mais longo, que no Brasil dura três anos ou um pouco mais.

No século XIX, ao avançarem os regimes que um dia se tornarão democráticos, tentou-se conter a representação popular, eleita diretamente pelo povo e presente na Câmara Baixa, mediante um "Senado conservador" (o termo é de Napoleão), formado dos nobres ou dos ricos. O saber das elites conteria o clamor das massas. Temia-se (diziam) que a demagogia levasse os pobres a eleger uma Câmara que iria expropriar ou taxar os ricos. Por isso, os senadores têm mandato vitalício ou, pelo menos, mais longo que os deputados. Se a maioria de pobres elegesse uma Câmara de esquerda, precisaria manter essa maioria por duas ou três eleições seguidas, antes de controlar também o Senado. Isso daria tempo a uma reação conservadora, até porque o governo de esquerda pouco poderia fazer de sua agenda e se tornaria impopular.

Hoje, o espaço das instituições se democratizou, os senadores são eleitos – mas a riqueza forma, fora das próprias instituições e portanto num território indefinido e ameaçador, um outro poder. Isso pode até dar saudades do tempo em que o Senado era explicitamente conservador. Um poder visível e, além disso, submetido a algum tipo de eleição é preferível a um poder invisível e que a sociedade não controla. É como se o capital fosse um Senado do século XIX, só que reforçado.

Nada disso desculpa – embora talvez explique – que governos eleitos com uma agenda alternativa acabem adotando o pensamento único. É isso o que temos a recear, em nosso país como no mundo todo. Se quisermos um outro mundo, precisaremos mudar esse recorte entre o econômico, como espaço sério, e o político, que acaba se tornando um lugar só das aparências, quase que dos folguedos. Nesse buraco negro, corre o risco de ser tragada a democracia e a própria política.