BLOG - MAURICIO MARTINS

Quarta-feira, 1 de Julho de 2009

15 anos do Plano Real!

Há 15 anos começavam a circular efetivamente as primeiras cédualas de Real. Um plano econômico bem sucedido, que conseguiu acabar com décadas de hiperinflação no Brasil. Nos anos anteriores ao plano, a inflação chegou a marca de mais de 1000% ao ano! Uma cifra inimaginável se pensarmos que, hoje, ela não chega nem perto de 6%. Foram muitas trocas de moeda, muitos planos econômicos...nenhum tão bem sucedido quanto o Real. E TODOS, antes dele, acompanhados da velha conhecida inflação. Sobre a história da inflação no Brasil, convido você a conferir um especial por mim apresentado: ESPECIAL - HISTORIA DA INFLAÇÃO NO BRASIL

É inegável que hoje o Brasil está muito melhor e mais "civilizado" do que antes do Real. Falta avançar em muitas áreas, é verdade. Infraestrutura, reformas tributária e política, crescimento econômico...são problemas que ainda encontramos hoje. Mas nem sequer poderíamos pensar em encontrar soluções para eles hoje se não tivéssemos resolvido o problema da inflação, que sempre nos assombrou. Não quer dizer que nunca mais a inflação alta voltará. Tudo indica que não. Mas é preciso se manter atento sempre.

O dia de hoje é um marco importante na nossa economia. Alguns avanços feitos pelo governo Lula não teriam sido possíveis não fosse a estabilização conquistada com o Real. E o Real, também não teria todas as condições postas para ser executado não fossem algumas medidas tomadas antes, no governo Collor, como a abertura da economia. Entre erros e acertos, deixamos de lado a inflação, "imposto" que penaliza sempre os mais pobres. Receber o salário de manhã e sair correndo para comprar comida no supermercado antes que os preços sejam remarcados e o dinheiro "vire pó" é de fato coisa do passado, e que muitos querem esquecer.

Não acho que devemos definir o Plano Real como o "plano perfeito". Mas foi o plano que deu certo. E foi o que o Brasil precisava naquela época. Alguns outros países, como Argentina e Israel já haviam combatido o fantasma da hiperinflação também na década de 90. Tínhamos conhecimento da experiência deles, mas é fato que o plano brasileiro teve que ser "único", com suas particularidades, haja visto diferenças substanciais entre o nosso país e os outros. Graças a competência da equipe que o implementou, ele deu certo. Foi preciso, cabe reforçar, muita coragem, em um momento no qual pouco se acreditava que "mais uma experiência de tentar a estabilidade econômica" desse certo, já que muitas outras haviam dado errado. A descrença de muitos foi vencida com um plano muito bem planejado. E o Real cumpriu a função a que veio: de estabilizar a economia brasileira. Não acho que é o caso, como muitos fazem, de culpar o plano pela falta de crescimento, pelos altos impostos...o Plano Real terminou em 1º de julho de 1994 quando a nova moeda começou a circular. O que veio depois, foi consequência.

Por fim, vale a pena você conferir parte do Jornal das Dez, da GLOBONEWS, que nesta quarta-feira iniciou falando sobre os 15 anos do Plano Real. Pra começar, uma excelente reportagem de Rosana Cerqueira, mostrando que a geração de hoje (jovens) não tem idéia de como era a época da hiperinflação e reapresentando a você a "maquininha de remarcar preços" que havia em todo supermercado (não que você estivesse com saudades, né?). Em seguida, você pode conferir o depoimento do Ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso, criador do Plano Real no governo Itamar Franco, além de uma entrevista com outros 2 criadores do plano: o ex-ministro da Fazenda Pedro Malan, e o economista Pérsio Arida.









Deixe o seu comentário. O Plano Real mudou a sua vida?

Até logo!

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Sábado, 28 de Fevereiro de 2009

Texto de John Rockefeller

Hoje coloco aqui um belíssimo texto de John Rockefeller, que está no Rockefeller Center, em Nova York. Abaixo, a tradução livre, seguida pelo original em inglês:

I Believe (Eu acredito)

" Eu acredito no valor supremo do indivíduo e em seu direito à vida, à liberdade, e ao exercício da felicidade. 

Eu acredito que todo direito implica uma responsabilidade; toda oportunidade, uma obrigação; cada posse, um dever. 

Eu acredito que a lei foi feita para o homem e não o homem para a lei; que o governo é o servo do povo e não o seu mestre. 

Eu acredito na dignidade do trabalho, quer com a cabeça ou com mão; que o mundo deve viver sem o homem, mas que tem cada homem tenha uma oportunidade para ganhar a vida. 

Eu acredito que frugalidade é essencial para o bom e ordenado viver e que a economia é o principal requisito de uma sólida estrutura financeira, quer no governo, negócios ou assuntos pessoais. 

Eu acredito que a verdade e a justiça são fundamentais para uma duradoura ordem social.

Eu acredito na santidade de uma promessa, que um homem de palavra deve ser tão bom quanto o seu vínculo; que o indivíduo - não o poder ou riqueza ou posição - é de valor supremo. 

Eu acredito que a prestação de serviço de utilidade é o dever comum da humanidade e que só no fogo purificador do sacrifício é a escória  do egoísmo e consumida a grandeza da alma humana em liberdade. 

Eu acredito em um todo-sábio e todo-amoroso Deus, seja ele chamado por qualquer nome, e que a maior satisfação do indivíduo, a maior felicidade, e a mais ampla utilidade encontram-se em viver em harmonia com a Sua vontade. 

Creio que o amor é a coisa mais maravilhosa do mundo, que só ele pode superar ódio; esse direito pode e deve triunfar sobre o poder."

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texto original em inglês:

I Believe

"I believe in the supreme worth of the individual and in his right to
life, liberty, and the pursuit of happiness.

I believe that every right implies a responsibility; every
opportunity, an obligation; every possession, a duty.

I believe that the law was made for man and not man for the law; that
government is the servant of the people and not their master.

I believe in the dignity of labor, whether with head or hand; that the
world owes no man a living but that it owes every man an opportunity
to make a living.

I believe that thrift is essential to well ordered living and that
economy is a prime requisite of a sound financial structure, whether
in government, business or personal affairs.

I believe that truth and justice are fundamental to an enduring social
order.

I believe in the sacredness of a promise, that a man’s word should be
as good as his bond; that character -- not wealth or power or position
-- is of supreme worth.

I believe that the rendering of useful service is the common duty of
mankind and that only in the purifying fire of sacrifice is the dross
of selfishness consumed and the greatness of the human soul set free.

I believe in an all-wise and all-loving God, named by whatever name,
and that the individual’s highest fulfillment, greatest happiness, and
widest usefulness are to be found in living in harmony with His will.

I believe that love is the greatest thing in the world; that it alone
can overcome hate; that right can and will triumph over might."

(John Rockefeller)

Terça-feira, 13 de Janeiro de 2009

Sucesso!!

No primeiro post do ano de 2009, um texto de NIZAN GUANAES, grande publicitário brasileiro.  Este texto foi lido por ele quando paraninfo de uma turma de formandos da FAAP.

FELIZ 2009 PARA TODOS!! SUCESSO E PROSPERIDADE!!


Dizem que conselho só se dá a quem pede. E, se vocês me convidaram para paraninfo, estou tentado a acreditar que tenho sua licença para dar alguns.
Portanto, apesar da minha pouca autoridade para dar conselhos a quem quer que seja, aqui vão alguns, que julgo valiosos.

Não paute sua vida, nem sua carreira, pelo dinheiro. Ame seu ofício com todo o coração. Persiga fazer o melhor. Seja fascinado pelo realizar, que dinheiro virá como conseqüência.
Quem pensa só em dinheiro não consegue sequer ser, nem um grande profissional, nem um grande canalha.

Napoleão não invadiu a Europa por dinheiro. Hitler não matou 6 milhões de judeus por dinheiro. Michelangelo não passou 16 anos pintando a Capela Sistina por dinheiro. E, geralmente, os que só pensam nele não o ganham, porque são incapazes de sonhar. E tudo que fica pronto na vida foi
construído antes, na alma.

A propósito disso, lembro-me de uma passagem extraordinária, que descreve o diálogo entre uma freira americana cuidando de leprosos no Pacífico e um milionário texano. O milionário, vendo-a tratar daqueles leprosos, disse:
-"Freira, eu não faria isso por dinheiro nenhum no mundo."
E ela respondeu:
- "Eu também não, meu filho."

Não estou fazendo com isso nenhuma apologia à pobreza, muito pelo contrário.
Digo apenas que pensar e realizar, tem trazido mais fortuna do que pensar em fortuna.

Meu segundo conselho: Pense no seu País. Porque, principalmente hoje, pensar em todos é a melhor maneira de pensar em si. Afinal é difícil viver numa nação onde a maioria morre de fome e a minoria morre de medo. O caos político gera uma queda de padrão de vida generalizada. Os pobres vivem como bichos e uma elite brega, sem cultura e sem refinamento,não chega a viver
como homens. Roubam, mas vivem uma vida digna de Odorico Paraguaçu.

Meu terceiro conselho vem diretamente da Bíblia: "Seja quente ou seja frio não seja morno que eu te vomito". É exatamente isso que está escrito na carta de Laudicéia: Seja quente ou seja frio, não seja morno que eu te vomito, ou seja, é preferível o erro à omissão, o fracasso ao tédio, o
escândalo ao vazio. Já li grandes livros e vi filmes sobre a tristeza, a tragédia, o fracasso. Mas ninguém narra o ócio, a acomodação, o não fazer, o remanso... Colabore com seu biógrafo.

Faça, erre, tente, falhe, lute. Mas não jogue fora, se acomodando, a extraordinária oportunidade de ter vivido. Tenha consciência de que, cada homem foi feito para fazer história. Que todo homem é um milagre e traz em si, uma revolução. Que é mais do que sexo ou dinheiro. Você foi criado para construir pirâmides e versos, descobrir continentes e mundos, e caminhar sempre, com um saco de interrogações na mão e uma caixa de possibilidades na outra.

Não use Rider, não dê férias a seus pés. Não se sente e passe a ser analista da vida alheia, espectador do mundo, comentarista do cotidiano, dessas pessoas que vivem a dizer: eu não disse?, eu sabia! Toda família tem um tio batalhador e bem de vida. E, durante o almoço de domingo, tem que agüentar aquele outro tio muito inteligente e fracassado contar tudo que ele
faria, se fizesse alguma coisa. Chega dos poetas não publicados. Empresários de mesa e bar. Pessoas que fazem coisas fantásticas toda sexta de noite, todo sábado e domingo, mas que na segunda não sabem concretizar o que falaram. Porque não sabem ansiar, não sabem perder a pose, porque não sabem recomeçar. Porque não sabem trabalhar.

Eu digo: trabalhem, trabalhem, trabalhem. De 8 às 12, de 12 às 18 e mais se for preciso. Trabalho não mata. Ocupa o tempo. Evita o ócio, que é a morada do demônio e constrói prodígios. O Brasil, este país de malandros e espertos, da vantagem em tudo, tem muito que aprender com aqueles trouxas dos japoneses. Porque aqueles trouxas japoneses, que trabalham de sol a sol, construíram, em menos de 50 anos, a 2ª maior megapotência do planeta.
Enquanto nós, os espertos, construímos uma das maiores impotências do trabalho.

Trabalhe! Muitos de seus colegas dirão que você está perdendo sua vida, porque você vai trabalhar enquanto eles veraneiam. Porque você vai trabalhar, enquanto eles vão ao mesmo bar da semana anterior, conversar as mesmas conversas, mas o tempo, que é mesmo o senhor da razão, vai bendizer o fruto do seu esforço, pois só o trabalho leva a conhecer pessoas e mundos
que os acomodados não conhecerão. E isso se chama sucesso.
(Nizan Guanaes)

Segunda-feira, 12 de Janeiro de 2009

A economia como mistério

O texto abaixo vale para uma boa reflexão sobre a economia, e a  visão que temos dela.

A economia como mistério

(Renato Janine Ribeiro)

Na política vivemos hoje um paradoxo, mais que isso, uma contradição fundamental: por um lado, nunca houve tantas liberdades democráticas no mundo, com tanta gente com direito a se expressar, a se organizar, a votar em eleições minimamente livres. Por outro lado, atualmente toda a escolha eleitoral está hipotecada pela economia. Mesmo quando se elege alguém propondo que "um outro mundo é possível", para usarmos a bela frase que o Fórum Social Mundial cunhou, um terceiro turno não-democrático acaba fazendo as decisões econômicas se aproximarem das impostas pelo chamado "pensamento único", isto é, o consenso neoliberal de Washington.

Assim, temos liberdade de escolha. Mas não nas questões fundamentais. Qualquer pessoa que hoje vá discutir seriamente os rumos do Brasil começa debatendo a política econômica ou monetária, e os modos (ou a impossibilidade?) de mudá-la. Muitos entendem que com a política vigente nessa área, que lembra a do governo passado, não poderá o governo atual realizar suas promessas sociais, nem o PT honrar seus princípios. E o nó dessa impossibilidade se chama economia.

Quero tratar aqui de um aspecto desse nó, que vale para o mundo inteiro: é que a economia soa, para a maioria esmagadora das pessoas (inclusive para mim), como misteriosa. Isso a coloca, estruturalmente, em conflito com a democracia. Uma sociedade democrática significa que todos discutam – e decidam – as grandes opções. Como eleitores, devemos ter alternativas diferentes e legítimas. No debate e no voto, escolhemos qual sociedade preferimos. Mas escolhemos mesmo? Porque a principal escolha está vinculada ao caráter da economia: solidária ou competitiva, socialista ou capitalista, voltada para o mercado interno ou para a exportação, etc.. E essa escolha não está ao alcance do leigo.

Ora, um traço fundamental da democracia é justamente que ela é um regime de leigos! Platão, que não a amava, procurou confiar a política a especialistas: é a idéia do "filósofo-rei", do sábio capacitado a decidir porque tem conhecimento científico. Ao contrário disso, porém, os atenienses entendiam que qualquer um tinha o direito de falar e votar. A democracia não é techné nem episteme, não é técnica nem ciência.

E no entanto hoje as questões básicas aparecem como um saber de técnicos, um saber qualificado e, mais que isso, muito difícil. Como fica então o caráter democrático da escolha? Fica amesquinhado. Elegemos quem promete uma coisa e depois, no governo, faz outra. Vejam: não se trata de acusar alguém de traição. Trata-se de entender qual o inquietante caráter da política atual que torna as liberdades reféns da economia.

Devemos lembrar o começo da era moderna. Um pouco antes da Revolução Inglesa de 1640, os reis insistem na natureza sagrada da realeza. Isso implica que haja arcana imperii, dizem os pensadores monarquistas, segredos do governo, "mistérios da realeza", explica o filósofo Francis Bacon, ministro do rei Jaime I. Em tais mistérios não se intrometa o súdito. Não os entenderá. Um véu, continua o filósofo-ministro, separa os homens comuns do poder, como no tabernáculo do Antigo Testamento.

Pois o que as revoluções modernas, do século XVII em diante, fizeram foi exatamente destruir esses mistérios do poder: o governante deve prestar contas a todos, sendo eleito ou referendado pela maioria. As Luzes abriram os mistérios, devassaram os arcanos. Avançou-se muito nesta direção. Mas curiosamente, em especial após a vitória do capitalismo sobre o comunismo, a economia ocupou esse lugar de difícil acesso que era, há três ou quatro séculos, o dos segredos do poder.

É claro que a economia, ao contrário da política de inspiração sagrada, não se apresenta como religião, mas como ciência. Seus mistérios não são divinos, mas vêm da dificuldade de sua matéria – na verdade, de uma dificuldade comum às ciências humanas, nas quais é difícil ser objetivo uma vez que estão envolvidos os interesses de quem conhece. Contudo, vários economistas falam e agem com algum fundamentalismo; sua linguagem é arcana, suas previsões falham; e, ao menos no Terceiro Mundo, com freqüência eles não se responsabilizam pelos maus resultados alcançados. Esses três traços não são democráticos e evocam o que houve de pior na religião – o extremismo, a indiferença à realidade, a irresponsabilidade do pregador.

Há um ponto a acrescentar. Destaquemos, entre os primeiros a praticar uma reflexão capitalista sobre as relações sociais, dois pensadores do mundo inglês, John Locke e Bernard Mandeville, um logo anterior a 1700, o outro logo posterior. Locke é o filósofo público do liberalismo. Ele pensa Deus à imagem do proprietário, como se vê em seu Segundo Tratado sobre o Governo (ed. Martins Fontes). O homem livre e racional é o que sabe usar sua propriedade. As liberdades individuais são valorizadas, mas sempre dentro de uma ordem divina.

Já de Mandeville podemos dizer que é o filósofo oculto do capitalismo. Seu moto é o célebre "Vícios privados, benefícios públicos", como mostra em sua Fábula das abelhas. Diz que, se para produzirmos uma sociedade boa dependermos da bondade de cada um, nada funcionará. Devemos pois apostar nos homens como são, egoístas, ambiciosos, luxuriosos – e construir instituições que canalizem essas paixões nada utópicas, para que gerem um resultado vantajoso socialmente. A livre concorrência é o grande exemplo que ele dá. Cada concorrente é movido pela sua ganância, que é um pecado – mas com isso melhora a qualidade dos produtos e abaixa os preços, o que é um ganho social.

Resumindo, Locke produz a ideologia do capitalismo, da qual todo liberal pode orgulhar-se, ao passo que Mandeville revela suas entranhas. Não dá para o capital sair a público elogiando Mandeville. Pegaria mal. Mas ele é quem conta o segredo de uma política e de uma economia que não precisam do bem moral para funcionar bem.

Ora, esse segredo tem dois lados. Primeiro, significa que, para haver uma sociedade que funcione, não temos de ser pessoalmente éticos e bons. Isso traz um enorme alívio para a vida social, porque nos permite lidar com o homem como ele é (Freud provavelmente diria que isso reduz nosso dispêndio psíquico) e não como alguns sonham que deveria ser. Essa, aliás, foi uma enorme vantagem – na prática – do capitalismo sobre o comunismo. O capital se contenta com o homem "como é", com seus vícios. Os comunistas queriam liberar o homem, construir o "homem novo". Não o conseguindo, ficaram aquém do capitalismo. Mais uma vantagem: essa redução da ética, que o capitalismo efetua, eliminou o peso dos moralistas religiosos, que – no poder – sempre foram intolerantes, levando às fogueiras da Inquisição ou de Salém. Esse, o saldo positivo de Mandeville.

Mas o segundo lado é que assim se chega a uma desqualificação dos princípios morais. Estes passam a ser entendidos como insuficientes e mesmo contraproducentes. Albert Hirschmann mostrou como funciona essa desqualificação, em seu livro A retórica da intransigência: todo projeto progressista ou apenas justo seria considerado inútil. Subir o salário mínimo, abolir a escravidão, investir no social reduziria os salários reais, lançaria os negros na miséria e na exclusão, geraria desemprego. Toda política social daria no contrário do que ela sonha. Esse discurso intransigente contra os direitos sociais é o legado complicado de Mandeville.

Os dois aspectos, os que chamei de positivo e de complicado, obedecem a uma lógica parecida, mas se distinguem. Não precisamos ser bons para que a sociedade funcione bem, diz o aspecto positivo. Alívio. Para que a sociedade funcione bem, não podemos ser bons, enfatiza o aspecto negativo. Inquietante. Não basta uma política ser moral, diz o primeiro. Uma política não pode ser moral, brada o segundo. Boas intenções não são suficientes, afirma o primeiro. O segundo: boas intenções necessariamente causam o mal. De volta ao primeiro: más intenções podem ter bons resultados. Ao segundo: bons resultados virão de medidas que parecem más.

É claro que uma política econômica capitalista não precisa seguir o tempo todo a segunda linha, a duvidosa. Mas às vezes o faz. Temos a impressão de que o fez demais, até. Assim, para produzir resultados que todos almejam, como a redução da miséria e da injustiça social, ela pode usar instrumentos que, a curto ou médio prazo, geram o contrário. E dirá que, se queremos o crescimento, devemos começar pela recessão; para uma justiça social a longo termo, deveríamos agravar a desigualdade a curto prazo. O problema é que muitas vezes os meios se perpetuam, a meta não se atinge.

É assim, e não pela religião, que a economia se constitui como um discurso de difícil compreensão. Ela é um saber leigo, no sentido de que aspira à ciência. Não é uma teologia. Mas, tanto pela sua linguagem cifrada (como a de tantas ciências) quanto, sobretudo, por esse dispositivo mandevilliano, que nos mostra um mundo opaco, um mundo no qual as intenções geram amiúde o contrário do que queríamos, ela se torna um território de difícil acesso ao leigo, no sentido de que se fecha ao não-profissional.

Não estou dizendo que esse modelo teórico da economia capitalista seja necessariamente errado. Basta ver o filme Adeus, Lênin, que mostra como a Alemanha Oriental, comunista, vivia um enorme descompasso entre os sonhos (que alguns idealistas compartilhavam) e a realidade repressiva. De boas intenções certos lugares estão cheios, sabe-se. Melhor, então, ser mais realista e menos utópico. Mas isso acarreta problemas sérios, nos quais nosso mundo está enredado e com os quais concluímos.

Do alerta muito oportuno (e que Maquiavel já fazia) contra os males de uma política (ou economia) baseada na moral e nas boas intenções, se passa ao extremo de uma política ou economia fundada na negação da moral. Viviane Forrester é simplista no desabafo que é seu livro O horror econômico, mas uma nota sua merece ser lembrada: que certa vez, ao cair o emprego, a Bolsa francesa festejou. Isso cria – numa sociedade que cada vez mais apela publicamente para a moral, convencendo-se de que não pode haver uma democracia de massas sem transparência e sem combate à corrupção – um cerne imoral, um núcleo duro que é contrario a bons propósitos, como o fim do desemprego. O discurso político proporá a inclusão social, mas a prática econômica aumentará a exclusão. Daí, uma esquizofrenia entre a política, que tenta ser democrática à medida que aumentam as liberdades, e a economia, que gera desigualdades e exclusões.

Pois como atender uma agenda política, que é basicamente social, sem uma economia pujante? E essa economia pujante, no mundo capitalista, apela a sentimentos – em especial dos investidores – que nada têm em comum com os ideais democráticos. Os investidores dispõem de um poder de fogo muito superior ao dos cidadãos comuns. Tornam-se cidadãos de primeiro escalão, que podem perder no primeiro e no segundo turno, mas ganham no terceiro – o mais longo, que no Brasil dura três anos ou um pouco mais.

No século XIX, ao avançarem os regimes que um dia se tornarão democráticos, tentou-se conter a representação popular, eleita diretamente pelo povo e presente na Câmara Baixa, mediante um "Senado conservador" (o termo é de Napoleão), formado dos nobres ou dos ricos. O saber das elites conteria o clamor das massas. Temia-se (diziam) que a demagogia levasse os pobres a eleger uma Câmara que iria expropriar ou taxar os ricos. Por isso, os senadores têm mandato vitalício ou, pelo menos, mais longo que os deputados. Se a maioria de pobres elegesse uma Câmara de esquerda, precisaria manter essa maioria por duas ou três eleições seguidas, antes de controlar também o Senado. Isso daria tempo a uma reação conservadora, até porque o governo de esquerda pouco poderia fazer de sua agenda e se tornaria impopular.

Hoje, o espaço das instituições se democratizou, os senadores são eleitos – mas a riqueza forma, fora das próprias instituições e portanto num território indefinido e ameaçador, um outro poder. Isso pode até dar saudades do tempo em que o Senado era explicitamente conservador. Um poder visível e, além disso, submetido a algum tipo de eleição é preferível a um poder invisível e que a sociedade não controla. É como se o capital fosse um Senado do século XIX, só que reforçado.

Nada disso desculpa – embora talvez explique – que governos eleitos com uma agenda alternativa acabem adotando o pensamento único. É isso o que temos a recear, em nosso país como no mundo todo. Se quisermos um outro mundo, precisaremos mudar esse recorte entre o econômico, como espaço sério, e o político, que acaba se tornando um lugar só das aparências, quase que dos folguedos. Nesse buraco negro, corre o risco de ser tragada a democracia e a própria política.

Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Último dia do ano...

O calendário é cruel com a gente...ou melhor, depende do ponto de vista! Hoje é dia de fazer o balanço de 2008 e pensar como melhorar em 2009...apenas 1 dia, 24 horas, 1440 minutos separam um ano do outro.

Dia de refletir, de dar uma "parada técnica"...

2008 chega ao fim....e 2009 vem aí!

2008 será sempre lembrado como o ano da mais grave crise financeira desde a Grande Depressão de 1929.

Um ano com acontecimentos sem precedentes no campo da economia, pelo menos considerando as últimas décadas. 2008 começou muito bem e termina de uma forma totalmente diferente. Resta a expectativa para 2009.

O fato é que ficamos diante de fatos não previstos com exatidão por quase nenhum economista, mesmo os mais experientes. O mundo experimentou uma reviravolta na economia, que colocou boa parte dos países em recessão (recessão é quando um país não cresce, ou seja, não aumenta a quantidade de riqueza produzida, por um período consecutivo de tempo). Se olharmos as previsões feitas no fim de 2007, praticamente nenhuma conseguiu traçar o real cenário que se desenhou nos últimos meses. Também não vamos exagerar e dizer que o inesperado aconteceu, mas talvez estejamos mais vulneráveis a crises do que podemos imaginar. Ou melhor, não há previsão que seja capaz de antever com exatidão os rumos da economia e permitir atitudes a priori, que poderiam amenizar os efeitos de uma crise econômica.

Sem pessimismo e sem futurologia, o fato é que não dá para falar muito sobre o que nos aguarda em 2009. Isso não muda, claro, a esperança de que seja um ano de "arrumar a casa" e recolocar a economia mundial nos trilhos. Paga-se hoje o preço pelo crédito fácil e pelo consumo desenfreado de pessoas sem condições de arcar com esses gastos. Essa é a origem do crédito subprime nos Estados Unidos, e que foi um dos reflexos da forma como o sistema financeiro internacional foi se colocando, exposto a riscos. Um crédito oferecido àqueles que não tinham um histórico creditício razoável, e que, em momento de dificuldades e de subida de juros, não conseguiram pagar o que deviam. E aí o resultado foram prejuízos para os bancos e uma reação em cadeia no sistema financeiro internacional. Que é mais globalizado e interdependente do que podemos imaginar.  E esse preço a pagar, esperam alguns, será em 2009. Para que em 2010 tudo melhore e volte a ser (quase) como antes. O fato é que, na verdade, ainda vai demorar muito para o mundo se recuperar dessa crise. E, dizem alguns, nada será como antigamente. Os bancos serão mais criteriosos para conceder empréstimos e o custo e disponibilidade do dinheiro para emprestar será bem diferente. 

É aguardar para ver. 2009 está aí, a poucas horas de nós.

Eu falo um pouco mais sobre o assunto no boletim em áudio que disponibilizo aqui no blog. É um balanço de 2008, meio que uma reflexão sobre este ano, no campo da economia. E uma breve expectativa para 2009. Espero que gostem.




Por hora, ratifico o meu desejo de um FELIZ 2009 para todos. Que seja um ano de muita paz, amor, harmonia, dinheiro (também é importante!) e muita, muita prosperidade para todos nós.

Segunda-feira, 24 de Novembro de 2008

Momento de reflexão: o jornalismo econômico

O bom jornalismo econômico...tentando sempre melhorar!

Acompanhar o noticiário econômico faz parte do cotidiano de poucos cidadãos em nosso país. Não raro encontramos pessoas que afirmam não ler o caderno de economia do jornal por “não entender o que está escrito lá” ou mesmo por acreditar que o assunto tratado naquelas páginas não tem relação direta com o cotidiano delas. É fato que a falta de educação econômica da população (o que deveria acontecer desde cedo, nas escolas) é um fator que contribuir para que, na vida adulta, seja difícil entender a lógica da economia ou mesmo ter interesse pelo assunto. E o papel do jornalista econômico é, sobretudo, conseguir levar a informação a este cidadão comum, de modo que ele entenda e possa criar interesse por acompanhar, mesmo que minimamente, o noticiário de economia.
Muito se discute sobre como fazer um bom jornalismo econômico e se para ser bom basta que ele seja entendido por todos. É claro que este é um, mas não o único fator para que se produza uma cobertura de qualidade. É preciso que ao escrever a notícia ela seja por si só entendida pelo leitor. E, no caso da economia, é de grande valia que os termos econômicos (o chamado “economês”) sejam usados com cautela. Além disso, traduzir os fatos do cotidiano em linguagem fácil, explicar de forma mais detalhada o que aconteceu (e sem o uso desses termos técnicos) é um caminho para despertar o interesse e o entendimento do leitor. Claro que nem sempre é possível traduzir tudo, mas é viável que aos poucos se dê subsídios para que o leitor possa ir entendendo e acompanhando de forma mais clara o noticiário de economia. E para tornar essa editoria mais interessante para o grande público (que às vezes não está interessado em explicações, mesmo que sem economês), uma solução é focar nos temas de interesse público, no noticiário econômico que tem relação direta com o cotidiano das pessoas e explicitar essa relação próxima, para que a grande maioria das pessoas entenda claramente que a economia está sim presente no nosso cotidiano (bem mais do que muitos imaginam!). Ilustrar melhor os assuntos de economia, aproximá-los do cotidiano das pessoas, tornar essas notícias mais “palatáveis” são mais algumas formas de fazer um bom jornalismo econômico. Um jornalismo cidadão, que consiga de fato democratizar o acesso às notícias desta editoria, para que todos possam também usufruir dos benefícios da informação (um leitor melhor informado sobre economia pode planejar melhor as finanças, não cair em armadilhas como o crédito fácil com taxas de juros altas...). O bom jornalismo econômico é aquele que cumpre a função social de levar a boa informação a todos. Não é tarefa fácil mudar os paradigmas dos veículos de comunicação, mas muitos já estão se empenhando em produzir um noticiário econômico passível do entendimento da grande maioria e sem perda de qualidade do que está sendo informado.